03.01.2025 – O advento das redes sociais transformou radicalmente o cenário da comunicação, do entretenimento e da interação humana. Plataformas como Facebook, Instagram, TikTok e YouTube tornaram-se onipresentes na vida de bilhões de pessoas em todo o mundo. No entanto, o acesso cada vez mais precoce e irrestrito de crianças e adolescentes a esses ambientes digitais tem gerado uma onda crescente de preocupação entre pais, educadores, profissionais de saúde e governos. Os riscos inerentes a esses espaços virtuais, que vão desde o cyberbullying e a exposição a conteúdos inadequados até impactos na saúde mental e questões de privacidade, estão a impulsionar um debate global sobre a necessidade de regulamentação mais rigorosa.

No último dia de 2025, em 31.12.2025, o jornal francês Le Monde noticiou que o governo francês após proibir o uso de celulares em escolas do ensino médio, articula um projeto de lei para bloquear o acesso de menores de 16 anos a plataformas de redes sociais, já a partir de setembro de 2026.

O argumento é o de exposição de jovens vulneráveis a uma vasta gama de perigos que vão desde o aliciamento de menores à apologia ao uso de drogas. Outras graves ameaças são os vieses nos perfilamentos adotados por algoritmos, assim como o cyberbullying promovido intencionalmente por malfeitores que vagam e se escondem no mundo virtual.

Os Inúmeros Riscos das Redes Sociais para Menores

A infância e a adolescência são períodos fundamentais de desenvolvimento psicológico, emocional e social. A imersão em ambientes digitais complexos como as redes sociais, sem a devida maturidade e supervisão, pode expor os jovens a uma série de perigos que afetam seu bem-estar de diversas formas. Entender esses riscos é fundamental para compreender a urgência das ações regulatórias.

Cyberbullying

A facilidade e o anonimato que o ambiente online pode proporcionar tornam as redes sociais um terreno fértil para o cyberbullying. Mensagens agressivas, humilhações públicas, exclusão social digital e disseminação de rumores falsos podem ter um impacto devastador na autoestima e na saúde mental de crianças e adolescentes. Diferentemente do bullying tradicional, o cyberbullying não se limita ao espaço físico da escola ou de convívio, podendo ocorrer a qualquer hora e em qualquer lugar, perpetuando o sofrimento da vítima e dificultando a fuga da situação. As consequências incluem ansiedade, depressão, isolamento social e, em casos extremos, ideação suicida, causando tragédias que poderiam ser evitadas por uma intervenção estatal, como pretende o governo francês.

Exposição a Conteúdos Inapropriados e Prejudiciais

Sem filtros eficazes ou supervisão parental constante, menores podem ser facilmente expostos a uma vasta gama de conteúdos inapropriados. Isso inclui materiais violentos, sexualmente explícitos ou mesmo implícitos, discursos de ódio, promoção de transtornos alimentares, automutilação, ou mesmo doutrinação em ideologias extremistas. A mente jovem, ainda em formação, pode não ter a capacidade crítica para processar e discernir a natureza desses conteúdos, levando à normalização de comportamentos nocivos, distorções da realidade e traumas psicológicos duradouros. As plataformas, muitas vezes movidas por algoritmos que visam a retenção do usuário, podem levar os jovens a espirais de conteúdo cada vez mais problemático, não tendo o algoritmo a percepção do mal que está fazendo àquele jovem, mas focando tão somente em manter a sua atenção e acesso ao conteúdo da respectiva rede social.

Privacidade e Segurança de Dados

Crianças e adolescentes, por sua inexperiência e desejo de aceitação social, frequentemente compartilham informações pessoais de forma imprudente nas redes sociais, expondo-os a um alto grau de risco. Detalhes sobre sua localização, escola, rotina, fotos e vídeos podem ser acessados por uma vasta audiência, incluindo indivíduos com intenções maliciosas. A falta de compreensão sobre as configurações de privacidade e os riscos de superexposição torna-os alvos fáceis para predadores online, cybercriminosos e golpistas que exploram a ingenuidade juvenil para fins de aliciamento, fraude ou roubo de identidade. A coleta massiva de dados por parte das próprias plataformas também levanta questões éticas sobre o uso dessas informações e a proteção da privacidade dos jovens usuários.

Dependência e Impacto na Saúde Mental

O design das redes sociais é intencionalmente concebido para ser viciante, utilizando mecanismos de recompensa intermitente (curtidas, comentários, notificações) que ativam os centros de prazer no cérebro. O uso excessivo pode levar à dependência, manifestada por ansiedade quando longe do dispositivo, dificuldade em controlar o tempo de uso, negligência de outras atividades e problemas de sono. A constante busca por validação social e a comparação com “vidas perfeitas” apresentadas nas redes podem desencadear ou agravar quadros de ansiedade, depressão, baixa autoestima e transtornos dismórficos corporais. A interrupção do sono devido ao uso noturno de telas é um problema amplamente documentado, com sérias implicações para o desenvolvimento cognitivo e emocional.

Pressões Sociais e o Impacto na Autoestima

As redes sociais criam um ambiente de pressão social intensa, onde a aparência, a popularidade e o sucesso são frequentemente idealizados e supervalorizados. Jovens são constantemente bombardeados com imagens e narrativas que muitas vezes não correspondem à realidade, mas que estabelecem padrões inatingíveis. A comparação constante com esses ideais pode levar a sentimentos de inadequação, inveja e insatisfação com a própria vida e aparência. Essa pressão pode ser particularmente prejudicial durante a adolescência, quando a identidade está em formação e a vulnerabilidade à opinião dos pares é acentuada. O receio de “ficar de fora” também contribui para o uso compulsivo e a ansiedade social.

O Pioneirismo da Austrália

Diante dos riscos alarmantes detalhados acima, a Austrália decidiu tomar a dianteira e implementar medidas legislativas rigorosas. Em novembro de 2024, o país aprovou uma legislação histórica que proíbe menores de 16 anos de terem contas em plataformas de redes sociais. A Lei de Emenda à Segurança Online, que entrou em vigor agora em 10 de dezembro de 2025, abrange gigantes digitais como Facebook, Instagram, TikTok e YouTube, marcando um ponto de viragem na forma como os governos abordam a proteção de menores no ambiente digital.

A legislação australiana impõe multas substanciais às empresas que não cumprirem as novas regras, podendo chegar a aproximadamente 50 milhões de dólares australianos (aproximadamente R$ 175 milhões de reais). O propósito da lei reside na exigência de que as plataformas tomem “medidas razoáveis” para impedir que menores de 16 anos criem ou mantenham contas. Isso implica a implementação de sistemas robustos de verificação de idade e a remoção proativa de contas que pertençam a usuários abaixo da idade permitida.

Apesar da boa intenção, a implementação dessa proibição não é isenta de desafios. Especialistas em tecnologia e representantes das próprias plataformas já expressaram suas preocupações. Rachel Lord, diretora de políticas públicas da Google e do YouTube na Austrália, por exemplo, afirmou que, embora a legislação seja “bem intencionada”, será “extremamente difícil de aplicar” e pode não alcançar o objetivo de tornar as crianças mais seguras online. As dificuldades incluem a precisão da verificação de idade sem invadir a privacidade dos usuários e a inevitabilidade de que alguns jovens tentem contornar as restrições. No entanto, o movimento australiano é um sinal claro de que os governos estão dispostos a ir além das recomendações e implementar regulamentações com peso legal.

A Reação do Governo Francês

A ousadia da Austrália ressoou em outros continentes, e a França, em particular, demonstrou forte interesse em seguir um caminho semelhante. Em junho de 2025, o presidente Emmanuel Macron anunciou publicamente a intenção de proibir o acesso de menores de 15 anos às redes sociais. A declaração de Macron foi enfática, a ponto de desafiar a inércia do bloco europeu: se a União Europeia não tomasse medidas conjuntas para abordar a questão, a França implementaria a proibição de forma independente.

A postura francesa, na verdade, reflete uma preocupação crescente em grande parte da Europa com o impacto das redes sociais nos jovens. Além da França, outros países europeus estão ativamente debatendo a necessidade de restrições de idade. Espanha, França e Grécia, por exemplo, propuseram conjuntamente o estabelecimento de uma idade mínima para o acesso às redes sociais em toda a União Europeia, com o objetivo de criar um ambiente digital mais seguro para os menores.

Porém, até o momento, a União Europeia não só negou o pedido de Macron para uma proibição generalizada de redes sociais para menores de 15 anos em todos os estados-membros, mas salientou que a decisão caberia a cada nação individualmente. Essa resposta destaca a complexidade de harmonizar legislações entre múltiplos países com diferentes contextos culturais e políticos; o que não impede que estados-membros busquem suas próprias soluções nacionais.

O interesse da França e a proposta conjunta de Espanha e Grécia, mesmo com a recusa da União Europeia em adotar uma abordagem unificada, apontam para uma tendência crescente de governos se mobilizarem para proteger os jovens dos riscos digitais. O debate já não é se é preciso agir, mas como agir de forma eficaz e justa.

Desafios na Implementação de Restrições

Embora a intenção por trás das proibições de idade seja louvável, a sua implementação prática é permeada por desafios complexos. Superar essas barreiras é crucial para garantir que tais leis sejam eficazes e não criem novos problemas.

A Complexidade da Verificação da Idade

Um dos maiores obstáculos é a verificação precisa da idade dos usuários. Como as plataformas podem determinar de forma confiável a idade real de uma pessoa que cria uma conta? Métodos como a exigência de documentos de identidade, embora rigorosos, levantam sérias questões de privacidade e acessibilidade. Muitos jovens podem não ter documentos, e a coleta de dados tão sensíveis por empresas privadas pode ser vista como uma invasão da privacidade e um risco de segurança para os próprios dados dos usuários. Além disso, a tecnologia atual de verificação de idade ainda não é infalível e pode gerar falsos positivos ou negativos.

A Eficácia das Restrições

Mesmo com sistemas de verificação de idade, há uma preocupação generalizada de que jovens e adolescentes encontrarão maneiras de contornar as restrições. Isso pode incluir o uso de identidades falsas, o empréstimo de contas de irmãos mais velhos ou pais, ou o acesso a plataformas menos regulamentadas e, possivelmente, mais perigosas. A criatividade e a capacidade de adaptação dos jovens no ambiente digital são notórias, e qualquer legislação precisará ser robusta o suficiente para antecipar e mitigar essas tentativas de contorno. A proibição pode empurrar o problema para a clandestinidade, tornando mais difícil monitorar e proteger os menores.

Segurança x Privacidade Digital

As medidas rigorosas de verificação de idade e monitoramento necessárias para fazer cumprir essas proibições podem comprometer a privacidade de todos os usuários, incluindo os adultos. Encontrar um equilíbrio entre a proteção dos menores e a preservação dos direitos individuais à privacidade e à liberdade de expressão é um desafio delicado. Qualquer solução precisa ser proporcional e minimamente invasiva, evitando a criação de sistemas de vigilância onipresentes que possam ser abusados.

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Alexandre Dalmasso

Advogado especialista em compliance, tendo atuado em compliance desde 2005 em grandes empresas e atualmente, liderando uma área de ética e compliance em um renomado escritório de advocacia.

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